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Canibalismo na História do Mundo

 

Ilustração de Sacrifício Azteca - Imagem Wikimedia Commons. 

O canibalismo ou antropofagia é o acto ou prática de comer membros da própria espécie.

As práticas canibais foram reprimidas por colonizadores e missionários europeus, restando poucas sociedades que anda o pratiquem. 

Alguns dos motivos associadas ao canibalismo são:

  • Sobrevivência -  Consumo de cadáveres ou homicídio para alimentação em situações de fome extrema.
  • Fúria - Consumo de inimigos mortos em batalha (exocanibalismo).
  • Vingança - Consumo de pessoas que fizeram mal à família (exocanibalismo).. 
  • Honrar - Consumo de um familiar falecido para facilitar a sua passagem para o mundo dos antepassados ou para absorver as suas qualidades (endocanibalismo).
  • Religião - Sacrifícios humanos como oferenda a divindades, seguidos de rituais que podem incluir a ingestão de sangue e de partes do corpo, como órgãos.



Tribos e Civilizações que praticaram o Canibalismo


Ásia

Indonésia - Tribos Batak da Sumatra,  as tribos de Papua Nova Guiné: os Kombai, os Korowai e os Baruya (actualidade).

India - Tribos Aghori.

Turquia - Haranitas da Anatólia.

Palestina - Judeus da antiguidade: Yeftah Mitspaya ofereceu a sua filha como sacrifício a Deus, pela vitória sobre o povo de Amon (Génesis 22:1–19). Abraão aceitou sacrificar o seu filho (Judas 11:34-40).

China - Canibalismo Medicinal.

Outras tribos asiáticas.


África

Uganda - Tribos Bagisu, Azande.

Congo - Tribos Lendu, Hema.

Etiópia - Tribos Zimba.

África do Sul - Tribos Zulu.

Madagáscar - Tribos Merina (séc. 19), Taisaka, Ikongo, Betsileo .

Outras tribos africanas.


Américas 

Ilhas das Caraíbas - Tribos Taínos, Caribes.

México -  Civilizações Aztecas (América do Norte e Central).

Peru - Civilização Wari.

Brasil - Tribos Tupinamb

Argentina, Bolivia, Brasil e Paraguai - Tribos Guarani, Mocoví.

Outras tribos americanas.


Oceania

Austrália - Tribos Kurnai, Ngarigo. 

Nova Zelândia - Maori.

Ilhas Fiji - Tribos das Fiji (até ao séc. 19).

Ilhas Salomão - Tribos de Salomão (até séc. 19).

Outras tribos oceânicas.


Europa

Grécia, Inglaterra, França, Suíça e outros países da Europa  - Canibalismo medicinal (séc. 16 a 19).



O Canibalismo Medicinal 

Parece ter sido praticado em todo o mundo, sendo utilizadas quase todas as partes do corpo humano para fazer preparações médicas, sobretudo na Europa e China, entre a Idade Média e o início da era moderna.

Os compostos chineses incluíam órgãos humanos, bem como unhas e cabelo, enquanto que, na Grécia Antiga, acreditava-se que o sangue humano tratava a epilepsia. 

E enquanto condenavam os canibais no "Novo Mundo" como selvagens, os europeus consumiam rotineiramente partes humanas como tratamento medicinal. 

Os seguidores do médico suíço Paracelso, do século 16, procuravam curar a disenteria (infecção intestinal) com medicamentos que continham crânios humanos em pó. 

Na Inglaterra do século 17, as múmias pulverizadas eram utilizadas em tratamentos para a epilepsia e dores de estômago. Milhares de múmias egípcias foram moídas e vendidas como medicamento.

No início da Era moderna, o remédio preferido para estancar hemorragias era o "musgo" do crânio. Tendo sido recomendado pelo químico belga Jean Baptiste Van Helmont. 

A extração de partes do corpo humano para fins medicinais foi proibido, na Europa, no final do século 19.


Episódios de Canibalismo praticados por sociedades de hábitos não-canibais


  • A Pequena Idade do Gelo da China (séc. 17)

No inicio do século 17, no final da dinastia Ming até à dinastia Qing, a fome tornou-se comum no norte da China, devido ao clima seco e frio invulgar que encurtou a estação de cultivo.  Os relatos históricos contam como pessoas tiveram que comer carne humana devido à fome generalizada.


  • A Época da Fome em Jamestown, 1609-1610 (séc. 17)

Ciente da escassez de alimentos na primeira colónia norte-americana, a Companhia da Virgínia enviou uma frota de nove navios em Julho de 1609 com novos colonos britânicos e mantimentos suficientes para durar o inverno. Mas a frota foi desviada e danificada por um furacão. Em meados de Agosto, alguns navios chegaram a Jamestown com 300 colonos e poucos mantimentos.

Durante o rígido Inverno, os colonos enfrentaram a fome e doenças. Famintos e desesperados mataram a fome comendo os cavalos, cães, gatos, ratos e finalmente cadáveres das sepulturas. 80% da população morreu.


  • A Campanhã Russa (séc. 19)

Napoleão impôs um Bloqueio Continental contra a Inglaterra, mas o Império Russo deixou de cumprir pelo prejuízo na economia russa. O que levou Napoleão a invadir a Rússia, no Verão de 1812, com um exército de mais de 600 mil soldados. Três meses depois, capturaram Moscovo.

Mas alimentar mais de 600.000 homens e os seus cavalos não era fácil, especialmente quando os russos destruíam as suas próprias culturas para negar alimento aos invasores.

O gélido Inverno estava a chegar e o imperador russo não se rendia. Então, Napoleão decidiu dar ordem da retirada. Famintos e gelados, alguns soldados recorreram ao canibalismo e auto-canibalismo para sobreviver.

Regressaram menos de 100 mil soldados.


  • A Expedição Donner de 1846 (séc.19)

Um grupo de 87 pessoas (homens, mulheres e crianças, de diversas famílias) liderado por George Donner, partiu de Illinois rumo à Califórnia, atraídos pelas terras férteis.
Mas, após tomarem um atalho não verificado, ficaram presos pela neve, na Serra Nevada. Quando os mantimentos escassearam, o desespero levou-os ao canibalismo. Quase metade do grupo colono norte-americano não sobreviveu. 


  • Estudos Académicos sobre a História Chinesa (séc. 20)
Em 1924, o historiador japonês Kuwabara Jitsuzō publica o estudo sinológico seminal "O Costume de Comer Carne Humana entre os Chineses".


  • A Grande Fome da Ucrânia, de 1932-1933 (séc. 20)

A fome extrema ou Holodomor que matou milhões de fome na Ucrânia, terá sido causada intencionalmente por uma medida de Josef Estaline para suprimir a resistência e forçar o povo  ucraniano à colectivizarão das suas terras agrícolas. O exército soviético aprendeu todo o cereal armazenado, proibiu a mobilidade da população e fechou as fronteiras da Ucrânia. 

Inicialmente alimentaram-se do gado, de cães, gatos e quaisquer animais. Mas depois sem comida e sem poderem fugir, muitos ucranianos recorreram a medidas desesperadas para sobreviver, como o canibalismo. 


Segunda Guerra Mundial - 1939- 1945 (séc. 20)

  • Os soldados japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial, consumiram centenas de prisioneiros de guerra indianos, que lutavam do lado do Reino Unido.

  • Os soldados nazis cercaram Leninegrado (São Petersburgo), entre 1941 e 1944 para capturar a cidade soviética. As rotas de abastecimento da cidade foram bloqueadas e as temperaturas desciam cada vez mais. Quando terminaram os alimentos, parte da população russa teve que alimentar-se dos cães, dos gatos, dos pássaros e depois recorrer ao canibalismo. Um terço da população morreu de fome, frio ou doenças.
  • Em 1945, quando os Aliados começaram a avançar para os territórios ocupados, os nazis tiveram que recuar e evacuaram os prisioneiro dos campos de concentração do Leste para os campos na Alemanha. O campo de concentração em Bergen-Belsen ficou severamente lotado e as condições dos prisioneiros tornaram-se criticas: sem condições de saneamento básico, escassez de alimento e água potável e uma epidemia de tifo espalhou-se pelo campo. A fome tornou-se tão extrema que levou a ocorrências de canibalismo. 

  • Rebelião Taiping  de 1850 a 1864 (séc. 19)
Durante esta guerra civil entre a dinastia Qing e o Reino Taiping, que durou 14 anos, até à queda do Reino Taiping, em 1864, o colapso da ordem social e da escassez de alimentos, levou a casos de canibalismo, na China.


  • A Grande Fome da China (séc. 20)

O Grande Salto em Frente foi uma campanha radical lançada pelo então líder Mao Tsé-Tung para atingir os níveis de produção da Grã-Bretanha e dos EUA, em poucos anos. Mas os objectivos irrealistas devastou a população chinesa.  Entre 1958 e 1961, a China mergulhou na fome e as pessoas famintas comeram carne humana, mesmo de amigos, parentes ou filhos por desespero.  Estima-se que 30 milhões de pessoas tenham morrido durante este periodo.


  • Canibalismo Revolucionário na China  (séc. 20)

A Revolução Cultural da China foi uma disputa interna entre facções do Partido Comunista Chinês. Em Guangxi o fervor revolucionário traduziu-se no canibalismo de ódio, ou seja, no acto de comer o inimigo de classe. Durante o ano de 1968, foram registados 421 casos de canibalismo em 31 dos 75 condados da Região Autónoma de Guangxi.


  • Acidente de aviação nos Andes, em 1972 ( séc. 20)

"Sociedade da Neve" é o filme de 2023 em que o realizador espanhol Juan Antonio Bayona retrata uma história verídica de um grupo de uruguaios que, depois de sobreviverem a um acidente de avião nos Andes, foram obrigados a alimentar-se dos cadáveres dos seus companheiros.


  • Pobreza no Brasil (séc. 20)

A revista internacional, de medicina, The Lancet noticiou, em 1994, que "comer restos humanos" era comum entre 250 pessoas que viviam numa favela de Olinda, no Brasil. Brasileiros famintos comiam partes de corpos humanos que encontravam no aterro sanitário da cidade.




Fantasias de Canibalismo


  • O Caso do Canibal Japonês (séc. 20)

Issei Sagawa, um estudante japonês de literatura inglesa da Universidade Sorbonne, em Paris, de 32 anos, convidou uma colega, a holandesa Renée Hartevelt, para a sua casa, em Paris. Matou-a a tiro, violou-a e consumiu várias partes do seu corpo, em 1981. Mas, em vez de enfrentar a justiça francesa, foi declarado insano e deportado para o Japão. 

Aí, foi considerado são pelas autoridades japonesas, mas como as acusações contra ele em França tinham sido retiradas, foi libertado.

Publicou livros, entre eles um em que descreveu o crime detalhadamente, deu entrevistas na televisão em que falou da sua obsessão pelo canibalismo, e apesar das suas confissões públicas do crime nunca foi preso.

O mundo assistiu incrédulo a um assassino canibal, tornar-se uma celebridade e lucrar com os seus crimes.

Sagawa morreu de pneumonia, aos 73 anos, em 2022.


  • O Caso do Canibal Alemão (séc. 21)

Armin Meiwes, um técnico de informática, de 42 anos, da pequena aldeia de Rotenburg, anunciou na internet, em 2001, que procurava "um jovem bem constituído que quisesse ser comido". Bernd Jürgen Brandes, um engenheiro de 43 anos, respondeu ao anúncio e concordou. Foi morto, cozinhado e devorado por Meiwes.
Meiwes foi detido em Dezembro de 2002, depois de publicar detalhes sobre o homicídio na internet, e sentenciado a prisão perpetua, em 2006. O canibal alemão protesta, justificando que tudo foi feito com o consentimento da vitima, tendo as filmagens como prova disso. No entanto, as autoridades alemãs consideraram que a vitima poderia não estar bem psicologicamente para tomar decisões.


  • O Caso do Trio Canibal Brasileiro (séc. 21)
Um casal e a amante assassinaram e comeram, ente 2010 e 2012, pelo menos uma adolescente e duas mulheres. As restantes partes dos corpos das vitimas foram usados para fazer empadas de carne, que venderam na cidade de Garanhuns, perto de São Paulo.
Foram apanhados pela policia, em 2012, após terem usado o cartão de crédito da última vitima.  



Parecer da Ciência Moderna

A evidência científica alerta que o consumo de carne humana aumenta o risco de transmissão de doenças infecciosas, pode facilitar a propagação de doenças priónicas e é biologicamente desvantajoso do ponto de vista evolutivo.

As doenças priónicas podem afectar o sistema nervoso e provocar degeneração do tecido cerebral, dando origem a uma aparência “esponjosa” do cérebro (encefalopatia espongiforme).

Um caso bem estudado é o da doença de kuru, observada entre populações da Papua-Nova Guiné que praticavam endocanibalismo ritual. A doença propagava-se através do consumo de tecido cerebral humano contaminado.

Por estas razões, o canibalismo é considerado pela biomedicina moderna como uma prática de alto risco sanitário.


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